Da África para o mundo: danças e ritmos afros se tornam trends no TikTok
- Júlia Machado
- 15 de jan. de 2021
- 5 min de leitura
Vídeos de internautas com performances de danças africanas são cada vez mais frequentes no aplicativo.
* Reportagem escrita em parceria com Gabriela Pereira
Com um ritmo animado e passos alegres, dançarinos e internautas atraem seguidores e agitam as postagens do TikTok com performances de danças africanas. Em poucos segundos uma dança ou música ganha grandes proporções fazendo com que até mesmo aquele usuário que não tem muita intimidade com a dança queira reproduzir as coreografias famosas.
Embora o TikTok seja uma rede de entretenimento, os próprios usuários percebem que o aplicativo vai além de sua proposta inicial, fazendo com que haja uma interação entre diferentes culturas, principalmente através da música e da dança. A dançarina, Danyella Faria destaca a importância da disseminação dos ritmos africanos no Brasil. Ela explica que mesmo que pareça ser só mais uma dança reproduzida em uma rede social, quando um ritmo viraliza a cultura também é divulgada.
“Quando alguém com imagem levanta a dancinha que tem a essência afro, faz a aceitação ser mais fácil e a dança afro ser mais presente e ganhar espaço. E isso vai além do TikTok”, destaca Danyella.
Ainda que a reprodução dos ritmos e passos de origem africana venham ganhando espaço entre os brasileiros, professoras que estudam as danças do continente argumentam que não basta apenas viralizar um ritmo ou a dança da cultura africana, é importante, principalmente, ter um embasamento teórico para que os movimentos não percam sua essência e virem apenas um modismo de rede social.
Segundo a professora de dança Patrícia Machado, “Qualquer dança tem que ser estudada antes de ser dançada. E a dança africana tem uma pegada cultural muito forte e se ela for feita fora do contexto, dançada só por dançar, perde bastante seu significado”, pontua a artista.
A dança que conquistou as redes
Dependendo da fama atingida, a chamada trend (que no inglês literal quer dizer tendência) permanece por meses na rede, sendo reproduzida por usuários que acabaram de entrar no app àqueles com mais experientes tanto no TikTok quando na dança e atinge pessoas de diferentes partes do mundo.
Os vídeos de internautas dançando rodaram o mundo com o #JerusalemDanceChallenge que virou um trend e viralizou nos primeiros meses de 2020. O desafio surgiu quando um grupo angolano postou um vídeo dançando o hit “Jerusalema”, música sul-africana do DJ KG com vocal da cantora Nomcebo Zikode. Milhares de vídeos imitando a coreografia em flash mobs ganharam projeção nas redes.
Walysson Felype é estudante de educação física e ingressou no TikTok há cinco anos, quando o aplicativo ainda se chamava Musical.ly, e conta que desde o início se dedicou a fazer conteúdos relacionados à dança. Ao contrário de Danyella, Walysson nunca teve aulas de dança afro e explica que conheceu a modalidade através das coreografias na internet: “Eu aprendi através de vídeos, no YouTube e no próprio TikTok, ainda não tive oportunidade de ter um contato direto com pessoas que dançam e que sabem ensinar dança africana, mas tenho muita vontade de aprender cada vez mais” revela o estudante.

Conhecendo novas culturas
A popularização da música e da dança africana nas redes sociais tem acontecido com maior intensidade após a chegada dos aplicativos de vídeo, e mesmo com o risco de alterar o significado da manifestação cultural, Patrícia destaca os pontos positivos da viralização: “Embora algumas pessoas só vão pegar alguns passos para copiar e gravar um vídeo para publicar, outras vão querer saber o significado da letra da música, vão querer saber como surgiu o passo”, explica.
Uma das formas mais prazerosas de aprender sobre a cultura de um povo é por meio da dança. Tanto a Patrícia, quanto a professora e coreógrafa, Grabriela Ramos, contam que embora elas sintam que as pessoas queiram aprender os passos afros também existe uma certa resistência, já que a dança costuma ser associada à rituais religiosos. As professoras explicam que as aulas devem ir além da simples repetição de movimentos e precisam contextualizar a origem da manifestação cultural.
Gabriela dirige uma escola de danças em Cabo Frio, e conta que fez um estudo com as turmas sobre o continente africano e coreografou duas apresentações com movimentos inspirados nas danças da Tanzânia e da África do Sul. No início, algumas bailarinas tiveram receio e até um pré-conceito que foi ressignificado após os estudos sobre a cultura do continente. Ela afirma que as danças foram muito bem recebidas pelas alunas e pelo público.
“Uma das principais características presente nas danças africanas é sem sombra de dúvidas a alegria. A alegria de quem dança, alegria das movimentações... uma energia que vem de dentro. São sempre coreografias muito animadas”, ressalta.
Ainda que em certos casos seja possível mostrar um olhar diverso para as pessoas acerca de outras culturas, nem todos se permitem conhecer o diferente. Patrícia trabalha com a divulgação da cultura afro na Região dos Lagos, e é uma das únicas dançarinas que apresenta coreografias de danças como o maculelê, o jongo e a ciranda de roda com frequência nos eventos da região. Ela conta que já sofreu discriminação em vários momentos na própria cidade, em Búzios. “Quando eu me arrumo que eu saio da minha casa, até o caminho de onde eu vou fazer a minha apresentação, já recebi xingamentos” revela.
Quando o tema é a arte africana, mais precisamente a dança, nota-se que os julgamentos são intensificados e o racismo e a xenofobia se fazem presentes. Walysson Felype acredita que as postagens no TikTok provocam um interesse maior dos usuários em relação a cultura afro, mas “existem pessoas racistas, preconceituosas que não gostam e que nunca vão achar legal danças africanas.”, afirma o estudante.
Com características fortes e empoderadas, cada movimento das danças africanas vão ritmando o corpo de acordo com as mais diferentes batidas, reproduzindo danças típicas que espalham energias e contagiam uma pessoa após a outra. O Tiktok como uma rede social, tem a função de unir os internautas proporcionando uma comunicação com mais interação. Mas no app, para viralizar e cair no for you (quando um vídeo passa para muitas pessoas) dos usuários, não basta apenas postar um vídeo dançando, é preciso levar em conta a escolha da música, os passos, o ritmo e até mesmo decidir se a dança vai ser solo ou em grupo.
Esses ritmos reproduzidos no aplicativo de postagem de vídeos, ainda que com pouca duração, ajuda a passar a essência do que é a cultura de grande parte dos povos africanos, onde os sentimentos são demonstrados por meio da arte. Assim, desde hits como Jerusalema, que possui um ritmo leve e uma batida firme que acompanha frases que exclamam "Jerusalém é minha casa, me salve!", até músicas mais agitadas que ressaltam o pop africano, como Kontrol que fala sobre amor e dedicação em versos como "Rosto bonito como Genevieve, o que você quiser, eu estarei, estarei bem aqui, não vou embora, todo o meu amor, garota, eu vou dar" vão ganhando espaço e notoriedade.




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