Muito mais que curtidas: Redes sociais surgem como espaço de propagação da ciência
- Júlia Machado
- 15 de jan. de 2021
- 6 min de leitura
Os avanços tecnológicos permitem que conteúdos de áreas como física, matemática, filosofia, química e biologia sejam explorados através de memes e em vídeos de até um minuto
*Reportagem escrita por: Larissa Vilarinho, Letícia Lourenço, Júlia Machado e Gabriela Pereira
Memes, comentários, curtidas, follow, unfollow, transmissões ao vivo. Qualquer usuário das redes sociais está familiarizado com esses termos e usa essas funções diariamente. Vendo todo esse avanço dos meios digitais, será que Galileu Galilei, Isaac Newton, Nicolau Copérnico, Cláudio Galeno, Carlos Lineu e outros grandes nomes da ciência imaginariam que no século 21 haveria redes sociais como Instagram e Tik Tok, e que elas seriam utilizadas na transmissão dos conteúdos científicos?
Não só os avanços tecnológicos, mas também a democratização do uso da internet permitiu que conteúdos de áreas como física, matemática, filosofia, química, biologia fossem disponibilizados para diversas pessoas, por meio das redes sociais. Segundo o relatório “Digital in 2020”, realizado pelo We Are Social e Hootsuite, existem 140 milhões de usuários de mídias sociais ativos no Brasil que passam em média 9h17min diárias na internet.


Germana Barata, pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo na Unicamp, acredita que as redes sociais são boas para comunicar sobre as ciências e pensa que o cenário atual da divulgação científica é otimista e ganhou muita visibilidade e relevância com a pandemia.
Durante o período de quarentena, um dos aplicativos que mais atraiu a atenção de jovens, adultos e até mesmo crianças foi o Tik Tok. Através do “app” o usuário pode gravar e editar vídeos rápidos de até 60 segundos. O ator e locutor Emerson Espíndola viu uma oportunidade de gerar conteúdos leves, descontraídos e criativos. Aos poucos o material foi ganhando forma e hoje aborda curiosidades sobre o corpo humano e outros temas da biologia.
Redes mais antigas e famosas, como o Facebook e Instagram, não ficam atrás e também são utilizadas para transmitir conhecimento. Um dos perfis de sucesso é a página “Ciência em Memes” criada pelo professor de física, Bruno Coelho, que através da linguagem das redes se aproxima do público jovem e ensina assuntos de química, física, matemática e biologia.
“O Tik Tok tem tido importantes impactos até na parte política, tem alguns divulgadores, médicos, políticos ocupando o aplicativo que não só está na moda, mas como pode atingir públicos que não estão no Facebook, Twitter e que não leem jornal. Então, quanto mais melhor! Já os memes trabalham com a questão do humor. Muitas vezes isso toca as pessoas, atinge, impacta, se ele for bem sucedido. É uma forma de conseguir quebrar o gelo, mostrar que a ciência pode ser divertida e pode atingir várias pessoas, porque ele (o humor) sensibiliza por outras questões, como a emoção e não razão necessariamente. Eu acho que isso é fundamental, porque ela não elitiza dessa forma, o humor é democrático por si, se ele for compreensível, é claro”, afirma Germana.
Para a especialista, o humor humaniza a ciência quando olhado pela parte engraçada, irônica. Ela acha que é uma forma muito bacana, mas muitas vezes não é tão eficiente desacompanhada. “O humor pode ser o suficiente para quebrar um gelo, mas ele sozinho não é o bastante”, diz.
Importância dos perfis
Segundo a pesquisadora, o Brasil não tem o melhor ensino de ciências e o Jornalismo Científico acaba sendo uma forma de educar a população deixando aos jornalistas uma responsabilidade que não é deles. De acordo com os dados apresentados pelo G1, as notas médias do ENEM 2019 em todas as disciplinas caíram em relação ao ano anterior. A prova mostrou que as ciências da natureza são as áreas de maior dificuldade dos brasileiros, com média geral de 477,8 pontos.
Apesar das redes sociais estarem sendo utilizadas para ensinar conteúdos científicos, é comum encontrar comentários de pessoas que não entendem o conteúdo e não recebem explicações em grupos de ciências nas redes sociais. Inclusive, esse foi um dos fatores que fizeram Bruno criar o “Ciência em Memes”. O professor ainda explica que já encontrou muitos memes com alguma informação errada que precisavam ser modificados para não espalharem desinformação.
“Decidi fazer a página para corrigir esses memes com erros conceituais e deixaria um pequeno resumo com as explicações para qualquer pessoa poder entender da maneira mais simples possível. Em pouco tempo eu já estava fazendo memes totalmente originais para a página e foi nesse momento que percebi o crescimento de seguidores com muitos elogios de estudantes, professores, pesquisadores e curiosos”, afirma o professor.
Quem também sente esse carinho vindo dos seguidores no Tik Tok é o Emerson. O ator já ultrapassou a marca de 180 mil seguidores no aplicativo e foi surpreendido com o feedback do público.
“Estou tendo muito retorno! Muito mais do que eu podia imaginar… As pessoas gostam de aprender e gostam de rir também, aí fica mais fácil. Isso é até um indicativo de que a gente gosta de estudar, mas muitas vezes não acha o jeito certo de fazer”, conta.
Ariadne Uberti Rohen, seguidora do “tiktoker” no Instagram, é radiologista especializada em medicina nuclear e radioterapia e instrumentadora cirúrgica, e aponta que principalmente para ela, que lida com o falecimento de pessoas diariamente, seja por COVID, ou por câncer, os vídeos de Emerson tornam a realidade mais leve, fazendo com que mantenha sua “sanidade”, como ela mesma afirma.
Ariadne também reconhece que tem facilidade em compreender conteúdos através da visualidade e deixa bem claro a importância dos vídeos produzidos por Emerson, até para quem já estuda o corpo humano, como é o caso dos profissionais de saúde: “Nós não podemos parar de estudar nunca”.
Valorização da ciência
Segundo Germana, todas as redes sociais são boas para comunicar sobre ciência. Ela afirma que há inúmeros divulgadores nas redes sociais que são bons e precisam de apoio para suas iniciativas. Na opinião da pesquisadora, há uma percepção de que apenas a informação, divulgada através das redes sociais ou em outros canais, não é o suficiente para mudar a opinião da população. Germana cita o alto número de fake news que se espalham pelo país com teorias negacionistas, contrariando conceitos já comprovados pela ciência.
“Temos líderes de governo que ajudam na disseminação de fake News. Fake news não é só mentira, mas tem uma série de condições fraudes, informações imprecisas, descontextualizadas, mentirosas, uma série de tipos de má informação. E, temos líderes de países que usam e se beneficiam da má informação. Estamos lidando com um exército preparado com dinheiro, organizado, orquestrado para conduzir a população a má informação”, conclui.
Para Bruno, a maior dificuldade de explorar o universo da ciência através de memes é conseguir convencer o leitor que a página não é uma página de memes qualquer. Ele diz que é verdade que existem alguns memes que são para descontração, mas a maioria tem um objetivo didático de esclarecer um conteúdo que muitas vezes não é entendido em aula.
“Não digo que uma pessoa consegue aprender um conceito totalmente novo por memes, mas é uma ótima ferramenta de fixação e mais uma para instrumentação do ensino, pois dá pra ver diversos comentários que provam que muitos estudantes ficaram exaltados e animados entendendo alguns memes da página”, diz.
Não é tão simples
Quem vê o conteúdo pronto, não imagina o trabalho para fazê-lo. Bruno conta que o processo de criação varia bastante. Em alguns casos a produção do meme é bem rápida, em outros pode levar semanas até que encontre uma imagem que encaixe com o tema. Por lecionar para o Ensino Médio e em cursos pré-vestibulares, Bruno comenta que possui maior proximidade com os objetos de estudo das disciplinas. No entanto, ele explica que os conteúdos de matemática são mais difíceis de representar por conta da abstração que a matéria demanda, e em biologia a dificuldade é tratar de temas fora de sua formação acadêmica, o que exige mais pesquisa e dedicação do professor.
Emerson, por sua vez, conta que a escolha dos temas ocorre de forma muito natural, já que recebe várias ideias dos seguidores. Apesar de apresentar o conteúdo de forma lúdica e descontraída, o ator também não abre mão de estudar e se informar corretamente sobre o assunto antes de gravar.
“Brinco no sentido de dizer para mim mesmo: se eu fosse o estômago ou a poeira entrando no nariz de alguém, o que eu diria? Eu me divertiria ou me daria mal? Com o tempo foi surgindo a ideia de usar balões ou outras coisas que eu tinha em casa e que podiam ajudar a contar as histórias”, explica.
É um consenso que os avanços científicos e tecnológicos impactaram e mudaram a forma como o conteúdo científico é transmitido. O que será que Galileu Galilei, Isaac Newton, Nicolau Copérnico, Claudio Galeno e Carlos Lineu diriam sobre esse novo meio de propagar conhecimento? E, se estivessem vivos, será que estariam nas redes falando sobre suas teorias?




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