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Desenvolvimento da Região dos Lagos pela Lagoa de Araruama: a necessidade de preservação da laguna

  • Júlia Machado
  • 23 de set. de 2018
  • 5 min de leitura

Vinte anos após a instalação das estações de tratamento de esgoto na Lagoa de Araruama, pesquisas apontam que o tratamento secundário pode favorecer a proliferação de algas o que diminui do oxigênio disponível no ambiente aquático.


Em artigo de 2016, a revista Ambiente Brasil (Disponível em: http://ambientes.ambientebrasil.com.br/agua/artigos_agua_salgada/a_eutrofizacao_na_lagoa_de_araruama_e_o_impacto_ambiental_das_estacoes_de_tratamento_secundario.html - acesso em 26/09/2018) analisa os impactos gerados pelo tratamento secundário (etapa que remove a matéria orgânica, onde ocorre a fase biológica) na Lagoa de Araruama. A pesquisa constatou que os resíduos do tratamento secundário contribuem para o aumento da eutrofização na laguna. A eutrofização consiste no acúmulo de matéria orgânica no ambiente aquático que gera um aumento no índice de fósforo e nitrogênio. O excesso desses minerais fornece a possibilidade de proliferação de micro-organismos (algas) que habitam a superfície das águas, o que impede a penetração de luz e diminui a taxa de fotossíntese, que por sua vez reduz o oxigênio da água.


O doutor em biociências nucleares, Manildo Oliveira, explica: “isso (eutrofização) ocasiona uma perda da qualidade estética daquele ambiente, porque você vai ver muitas microalgas no ambiente e terá morte de peixes também já que o oxigênio vai cair muito, então os organismos aquáticos que dependem do oxigênio para viver acabam morrendo.” Ele afirma que as consequências podem afetar ainda o setor econômico “alguns lagos e lagoas, do ponto de vista do paisagismo, são importantes, são atrativos turísticos. Então o turista fica realmente numa situação complicada, porque acaba não tendo aquele ambiente para exercer a atividade de turismo” conclui.


No ano seguinte à publicação do artigo, a Prolagos iniciou a construção da ETE (estação de tratamento de esgoto) terciária (remove fósforo e nitrogênio) na cidade de Armação dos Búzios, município que não possui ligação com a laguna. Contudo, até o dia 27/09 empresa não se manifestou sobre as considerações presentes no artigo.


A laguna de Araruama é uma das principais atrações turísticas da região, e encontra no crescimento desordenado um obstáculo para sua preservação. A atividade pesqueira, a extração de sal e o turismo são algumas das atividades que sustentaram a economia dos municípios e promoveram o crescimento da população urbana, que ocorreu de maneira acelerada e desordenada. A falta do serviço adequado de saneamento básico, sobretudo de esgotamento, foi um dos principais problemas para a conservação da laguna.


De acordo com Manildo, a Lagoa de Araruama era um atrativo turístico na década de 1970 “ela apresentava águas muito límpidas, a lagoa era bem azulada, porque que era o ambiente que, em termos de substâncias que ali estão, era chamado de ambiente oligotrófico, ou seja, tinham poucos nitratos, fosfatos, poucos nutrientes, inclusive em função da alta salinidade que impedia que muitos organismos pudessem ter o seu ciclo de vida completo ali”, afirma.


O pesquisador explica que “com o advento da ponte Rio-Niterói na década de 70, ficou mais fácil a chegada na região, então houve aí o início de uma explosão demográfica, e a ocupação próxima às margens da Lagoa de Araruama”. Segundo ele, a poluição foi agravada após 1990 com o lançamento de esgoto in natura que promoveu o aparecimento de macroalgas.


No ano 1998 a Prolagos assumiu a concessão pública e ficou responsável por implantar os sistemas de fornecimento de água e de tratamento de esgoto em Armação dos Búzios, Arraial do Cabo, Cabo Frio, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia. Antes da atuação da empresa, a população atendida com o esgotamento era de quase 0% e após 20 anos alcançou 79,2% da população (percentual acima da meta estabelecida pela concessão que é de 70%).


Além de diminuir a poluição da laguna, o tratamento de esgoto da região influenciou não apenas o turismo, mas também atuou de forma intensa no mercado imobiliário. O corretor de imóveis Geraldo Ramos, proprietário da imobiliária de mesmo nome, conta que o preço de um imóvel pode variar em até 30%, para mais ou para menos, em razão da existência do esgotamento, e diz que prefere não trabalhar com imóveis sem a rede de esgoto “ao vender um imóvel desse você tem que dizer “Ó, o imóvel aqui é sistema de fossa, sumidouro. E as pessoas hoje não estão querendo adquirir imóveis que não tenham essas estruturas todas. Como eu te falei, o esgotamento, água, luz, internet, Tv à cabo... Então nós nem queremos trabalhar” declara.


Geraldo conta que “o canal hoje é um canal limpo, o esgoto já está com vários tratamentos, a beira dos canais você vê que tem as estações (de tratamento de esgoto). Então hoje, o comprador de imóveis já tem esse conhecimento, que é uma cidade que já tem um bom trabalho feito pela Prolagos” afirma.

A moradora de Cabo Frio Simone Ribeiro, diz que mesmo no período anterior à concessão da Prolagos, o serviço de esgoto era efetivo no centro da cidade. “Era feito através de tubulações subterrâneas, os bueiros não entupiam, funcionavam adequadamente”.


Por outro lado, o suboficial da Marinha Emerson Ferreira, alega ter dificuldades relacionados à rede de esgoto desde 2015, quando adquiriu o imóvel em um condomínio no bairro Cruz, em São Pedro da Aldeia. O esgoto residencial é depositado na fossa, e para ser esvaziada é necessária a contratação de um caminhão “quando se chama o caminhão o dono da casa que paga, é quando a fossa está cheia. O tempo varia muito de acordo com a área da casa, onde tem muita umidade de chuva, de seis em seis meses. Casa em área que não alaga, de quatro a cinco anos só para manter mesmo” Ele relata que o sistema de fossa interfere na infraestrutura do imóvel “a área destinada a estas obras de fossa e sumidouro poderiam ser usadas para outra construção ou ampliação da casa. Aqui todas as casas têm estas estruturas e onde são feitas não se pode colocar peso em cima e nem construir nada, fica uma área perdida. É que a fossa é feita com manilhas de cimento e se colocar peso em cima pode quebrar”, explica.


Outro problema é o método acordado no período da concessão para o tratamento do esgoto, conhecido como sistema de tempo seco. Trata-se de uma solução temporária para lidar com o esgoto depositado in natura no meio ambiente, que não funciona em dias de chuva, uma vez que a estrutura não comporta a quantidade de esgoto mais água pluvial, por isso as barragens são abertas lançando o material na Lagoa.


Atualmente a Região dos Lagos ainda depende da Lagoa de Araruama para seu desenvolvimento econômico, por isso a conservação a proteção do ecossistema marinho é de suma importância. “A preservação da Lagoa ela vai depender de muitas ações conjuntas, uma delas é tentar garantir que o tratamento de esgoto ocorra, e já ocorre através de um cinturão, mas que possibilite o tratamento terciário também. Isso é importante, e que todo o esgoto possa ser tratado. Isso tem que ser uma meta dos órgãos ambientais e da população também que de certa forma vai usufruir desse ambiente” conclui Manildo.


Reportagem redigida em 2018.

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