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"Amor, sublime amor": remake de clássico de 1961 traz temas como xenofobia e formação dos guetos

  • Júlia Machado
  • 25 de abr. de 2022
  • 3 min de leitura

O mais novo filme de Steven Spielberg (E. T. o Extraterrestre, Jurassic Park) chegou ao streaming no início de março. Dessa vez, o premiado diretor se afastou das histórias fantásticas e de aventura para explorar o visual e a emoção da narrativa musical.



Remake de sucesso dos anos 60, Amor, sublime amor traz temas contemporâneos como xenofobia e marginalização social - Foto: Reprodução



Amor, sublime amor (West Side Story) é um remake do filme de mesmo nome lançado em 1961. A história adapta o clássico Romeu e Julieta para os tempos de imigração latina nos Estados Unidos da década de 50. As famílias Montecchio e Capuleto dão lugar às gangues dos Jets (formada por estadunidenses brancos) e os Sharks (composta por descendentes e/ou imigrantes porto-riquenhos).


O primeiro ato é um dos mais fortes do filme. É nele que o espectador é ambientado na periferia novaiorquina de 1957 e as gangues são apresentadas em cenas dinâmicas e musicadas. Os Jets, são os clássicos bad boys, pobres, mas estadunidenses. A gangue reforça ideias supremacistas e projeta a disputa por território contra os porto-riquenhos, a quem culpam pela falta de emprego e marginalização dos antigos moradores do bairro. Os Sharks, por sua vez, tentam proteger o legado de sua cultura em terras estrangeiras, mesmo que para isso seja necessário recorrer à violência.


Os Jets encaram os Sharks como inimigos e tentam "higienizar" o bairro, enquanto as classes mais altas, as verdadeiras responsáveis pela criação dos guetos, ficam de fora assistindo à espera de que os mais pobres sejam detidos ou empurrados para ainda mais longe. Esse poderia ser um caminho diferencial para o trabalho de Spielberg, já que o primeiro ato do longa oferece bons ganchos para o debate de assuntos contemporâneos como a xenofobia e criação dos guetos, por exemplo.


Por trás dos tecidos coloridos e das cenas dançantes, com um olhar mais atento é possível interpretar o filme para além da tragédia shakesperiana. Em falas como "Não fale espanhol aqui" ou em atos simbólicos como no apagamento da bandeira de Porto Rico logo entre as primeiras cenas, teorias como a do pânico moral se fazem presente. Criada pelo sociólogo Stanley Cohen, a teoria aborda justamente a mentalidade de que o comportamento de uma minoria é perigoso ou representa uma ameaça para a sociedade. Bem atual, não?


No equivalente ao segundo ato o casal principal é apresentado. Maria (Rachel Zegler) é porto-riquenha e irmã de Bernardo, premiado boxeador e líder da gangue dos Sharks. A jovem mulher é uma recém chegada para um casamento com Chino (Josh Andrés Rivera), para o qual não parece animada. Em uma de suas primeiras noites na cidade, Maria vai ao baile do Ensino Médio acompanhada do irmão, da cunhada e de seu futuro noivo.



Em meio às batalhas de dança e discussões das gangues rivais, Maria conhece Tony (Ansel Elgort), ex-lider dos Jets que tenta mudar de vida e se restabelecer após uma tragédia. Os dois se apaixonam e tentam esconder o romance de Bernardo, mas sem muito sucesso - Foto: Reprodução



As danças e os figurinos, que inclusive garantiram indicação ao Oscar, são o ponto alto do filme. Além da montagem conduzida na cadência musical, as batalhas de dança no baile da escola e as coreografias perfeitamente sincronizadas trazem o charme do filme, assim como a direção de arte que faz um belo uso das cores para marcar a rivalidade dos grupos.



O azul e cores mais frias dos Jets contrastam com as cores quentes (comumente associadas aos latinos) na cena do baile - Foto: Reprodução



Outro destaque é o desempenho de Ariana DeBose como Anita, a namorada de Bernardo. A personagem roubou a cena toda vez que entrava em tela, seja através de uma atuação potente, representando uma mulher negra e latina no fim da década de 50 em um dos países mais racistas da América, ou nas coreografias enérgicas perfeitamente executadas pela atriz. Não à toa, DeBose conquistou o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante e concorre ao Oscar na mesma categoria.



A representatividade também foi um avanço e não ficou de fora, diferentemente do primeiro filme, foram escalados atores latinos ao invés de atores brancos maquiados - Foto: Reprodução



Em aspectos técnicos o filme não deixa a desejar e faz jus às indicações técnicas na temporada de premiações do audiovisual. Já em relação à construção narrativa e ao desenvolvimento da história, o início bem estruturado em questões de disputas de classe e choques culturais cede espaço e se entrega ao já conhecido clichê romântico de Romeu e Julieta; e pior, superestima uma paixão de poucas horas com suas implicações na vida das personagens. Claro, não se deve ignorar que "Amor, sublime amor" se trata de uma releitura da peça de Shakespeare, mas a nova produção era uma ótima alternativa para inserir conflitos diferentes e renovar uma das histórias mais conhecidas do teatro e do cinema.


*Texto publicado no portal É Sobre Isso. Confira clicando aqui.

 
 
 

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