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Ataque dos Cães: O machismo estrutural e a sobrevivência no faroeste intimista de Jane Campion

  • Júlia Machado
  • 25 de abr. de 2022
  • 4 min de leitura

Vencedor do Oscar de melhor direção, o longa dividiu opiniões do público mas teve bom desempenho nas premiações do circuito audiovisual.




A produção da Netflix lançada no final de 2021 provocou certo alvoroço no público, dividido entre os que se entusiasmaram com a obra e os que a acharam superestimada - Foto: Reprodução Netflix



Ambientado no estado de Montana no ano de 1925 em uma fazenda herdada por dois irmãos, o filme se afasta das características típicas da ação de pistoleiros e longas perseguições do gênero faroeste. Talvez por essa razão não tenha sido bem aceito por parte do público pouco habituado a montagens mais lentas e uma história que demora para engrenar. Apesar disso, a beleza de Ataque dos cães está nos conflitos presentes nos olhares, nos silêncios e nas tensões psicológicas intra e inter-pessoais explorados a todo momento através de elementos não verbais.


O roteiro é simples e bem estruturado, e traz a história dos irmãos Phil Burbank (Benedict Cumberbach) e George Burbank (Jesse Plemons) responsáveis por gerenciar a fazenda da família após a morte do pai. Phil é o estereótipo do homem bruto, apesar de muito inteligente preferiu a vida no interior, e exala uma masculinidade animalesca (quase que literalmente). George faz um contraponto ao irmão, e é mais sociável e empático.


O conflito começa quando George decide se casar com Rose (Kristen Dunst), uma viúva que gerencia uma pensão com ajuda de seu filho adolescente Peter (Kodi Smit-McPhee). Phil não aprova a união seguida da mudança de Rose e Peter para a fazenda, e passa a implicar com os dois sempre que possível.


A masculinidade territorialista de Phil se estende para seu comportamento agressivo e se materializa na atuação fenomenal de Benedict Cumberbatch, que incorpora um homem do início do século XX dividido entre o desejo e o conservadorismo do meio social em que está inserido. Em uma de suas melhores atuações, (algo difícil para um ator que interpretou com maestria nas séries Sherlock Holmes e Patrick Melrose), Cumberbatch varia com muita facilidade entre reações explosivas e sutilezas que mostram a vulnerabilidade de Phil que consegue transitar entre o antagonista odiado e o protagonista que apesar da brutalidade, provoca empatia no público.


Kristen Dunst também se entrega à Rose, uma mulher sufocada pela dor que tenta proteger seu filho após a perda do marido. Apática na maioria dos momentos, Rose se anestesia através do álcool o que a leva à violentas brigas com Phil. Kodi Smit-McPhee foi outra revelação para a indústria. O menino franzino e mais delicado cuida de sua mãe e após ser humilhado algumas vezes por Phil, acaba se aproximando do novo tio. Ele passa a ser uma figura-chave no desenrolar da história.




A fotografia também é um recurso narrativo bem aproveitado no longa, com planos gerais e o uso das janelas da casa como molduras, conferindo um olhar mais intimista - Foto: Reprodução Netflix



Outro aspecto técnico que merece destaque é a trilha sonora que acentua o suspense e traz uma espécie de mal estar, sinalizando que um conflito maior está prestes a estourar a qualquer momento.


O faroeste taciturno foi alvo de críticas até de estrelas de Hollywood. O ator Sam Elliott durante uma entrevista ao podcast WTF chamou o filme de "pedaço de merd*" e reclamou das "alusões à homossexualidade" ao longo do filme (é, parece que alguém não entendeu a história…). Elliott ainda foi além, e disse que Jane Campion não deveria dirigir um filme sobre o oeste dos Estados Unidos.


O ator Sam Elliott criticou a representação dos caubóis "correndo sem calças e sem camisa" que destacou como alusões à homossexualidade - Foto: Reprodução Netflix



O protagonista Benedict Cumberbach se posicionou contra a fala de Elliott em uma entrevista no BAFTA Film Sessions. Sem mencionar o ator, ele afirmou que a homossexualidade sempre existiu no mundo e que por isso deveria ser tratado com mais naturalidade no cinema. Cumberbach ainda destacou que "além dessa reação, esse tipo de negação de que alguém poderia ter outra existência não heteronormativa por causa do que faz para viver ou onde nasceu, há também uma intolerância maciça no mundo em geral em relação à homossexualidade e a uma aceitação do outro e qualquer tipo de diferença. Não mais do que neste prisma de conformidade do que se espera de um homem no molde do arquétipo ocidental de masculinidade. Desconstruir isso através de Phil, não é uma lição de história”, afirma.




Jane Campion, diretora do filme, também classificou o comentário do ator como sexista e ressaltou que o oeste estadunidense é um espaço mítico onde muitas histórias ainda podem ser desenvolvidas - Foto: Reprodução



O plot twist da história sem dúvidas contribui para o sucesso entre os críticos. O final inesperado que pegou muitos espectadores de surpresa é o encerramento de um ótimo trabalho conjunto dos aspectos técnicos e artísticos e de grandes atuações reunidos sob a direção de Campion.


O filme trata de muitas maneiras sobre a sobrevivência e como muitos indivíduos se desfazem de sua personalidade para se adequar aos valores locais e temporais. O machismo é um instrumento que perpassa todos os arcos, desde Phil precisando esconder suas vulnerabilidades sob a face da violência e da ironia à Rose lutando para dar uma vida digna a seu filho e sendo subestimada em uma sociedade patriarcal e conservadora. Seja através da fúria, do entorpecimento ou da apatia, as personagens lidam com a hipocrisia de uma sociedade que se orgulha em conservar os “bons valores" e celebrar uma virilidade toscamente construída. Apesar da história se passar no século passado, o tema é tão atual que nem mesmo a Hollywood do século XXI parece estar tão pronta para ele.


* Texto publicado no portal É Sobre Isso. Confira clicando aqui.

 
 
 

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